A mesma coisa acontece quando perdemos alguém que amamos. Quando as condições que os mantêm vivos não são mais suficientes, eles se retiram. Quando perdi a minha mãe, sofri muito. Quando se tem somente sete ou oito anos é difícil pensar que, um dia, iremos perder nossa mãe. Com o tempo, todos nós crescemos e perdemos as nossas mães. Se você souber praticar, quando esse dia chegar, você não sofrerá muito. Você perceberá rapidamente que ela estará sempre viva em você.
No dia em que minha mãe morreu, escrevi no meu diário “Um grande infortúnio aconteceu na minha vida!”. Sofri por mais de um ano a sua morte. Mas uma noite, nas montanhas do Vietnã, eu estava dormindo no meu eremitério e sonhei com ela. Vi-me sentado ao seu lado e tendo uma conversa maravilhosa. Ela parecia jovem, linda, com seu cabelos soltos. Foi tão agradável esse momento que foi como se ela jamais tivesse morrido. Quando acordei, era umas duas horas da manhã e eu estava com uma forte sensação de que nunca havia perdido a minha mãe. A impressão de que ela ainda estava comigo era muito clara. Nesse dia eu compreendi que a idéia de perder a mãe era apenas uma idéia. E era óbvio nesse momento que ela sempre estaria presente em mim.
Abri a porta e saí. Toda a colina estava banhada pela luz do luar. Era uma colina coberta por plantações de chá e minha cabana estava atrás do templo, a meio caminho entre o topo e a base. Ao caminhar lentamente sob o luar e por entre as fileiras de chá, percebi que minha mãe estava ali comigo. Era ela a luz do luar me acariciando, como tantas vezes tinha feito antes, doce e gentil...Foi maravilhoso! A cada vez que os meus pés tocavam a terra, eu sabia que ela estava ali, comigo. Compreendi que esse corpo não era somente meu, mas uma continuação viva não só da mãe, mas do meu pai, dos meus avós e bisavós. De todos os meus ancestrais. Estes pés, que antes eu via como “meus”, eram, na verdade, “nossos”. Juntos, eu e minha mãe estávamos deixando pegadas no chão molhado.
Daquele momento em diante, a minha idéia de que eu havia perdido a minha mãe, desapareceu. Tudo o que tenho que fazer é olhar a palma da minha mão, sentir a brisa na face ou a terra sob meus pés para me lembrar que ela estará sempre aqui, comigo, disponível a qualquer momento.
Quando você perde um ente querido, você sofre, mas se observar profundamente, terá a chance de perceber que a natureza dessa pessoa não é nem nascer e nem morrer. O que existe é apenas a manifestação e a cessação da manifestação a qual prepara uma nova manifestação. Você precisa estar muito atento para reconhecer a continuação de alguém. Mas com prática e um pouco de esforço, você conseguirá.
Assim, tomando a mão de alguém que conhece a prática, faça uma meditação caminhando juntos. Preste atenção às folhas, flores e pássaros e às gotas de orvalho. Se você parar e observar, será capaz de reconhecer a pessoa amada muitas vezes e de diferentes formas. E assim, você sentirá a alegria de viver.
quinta-feira, abril 29, 2010
Encontrando Um Ente Querido Perdido
Postado por
Samuel Cavalcante
às
12:59
2
comentários
Marcadores: morte, no death no fear, thay
segunda-feira, março 08, 2010
Tornando-se Nada
Nosso maior medo é que ao morrermos nos tornaremos nada. Muitos acreditam que toda a nossa existência é somente a vida que começa no momento em que nascemos e que termina no momento da nossa morte. Acreditamos que nascemos a partir do nada e que quando morrermos nos tornaremos nada. E por isso ficamos cheios medo da aniquilação.
O Buda tem uma compreensão muito diferente de nossa existência. Para ele, nascimento e morte são noções, não são a realidade. O fato de que pensemos que são realidade produz uma ilusão muito poderosa que faz com que soframos. O Buda ensinou que não existe nem nascimento e nem morte, nem ir e nem vir, nem o mesmo e nem diferente, nem um eu permanente e nem aniquilação. Somos nós que pensamos assim. Ao compreendermos que não podemos ser destruídos, a gente se liberta desse medo e isso é um grande alívio. Passamos a aproveitar melhor a vida e a apreciá-la de uma nova maneira.
Postado por
Samuel Cavalcante
às
10:07
2
comentários
Marcadores: morte, nascimento, no death no fear
terça-feira, março 02, 2010
Nem Nascimento, Nem Morte
No meu eremitério, na França, há uma planta chamada marmeleiro japonês. Ele floresce normalmente na primavera, mas um inverno desses foi mais quente que o normal e os botões das flores apareceram mais cedo. Uma noite, entretanto, uma frente fria passou e as folhas e as flores ficaram congelados. No outro dia, ao fazer meditação caminhando, notei que todos os botões tinham morrido e pensei “No ano Novo, não teremos flores suficientes para o altar do Buda”.
Algumas semanas depois, o tempo esquentou de novo e, ao caminhar pelo meu jardim, vi novos botões em flor do marmeleiro, manifestando uma nova geração de flores. Então perguntei a elas “Vocês são as mesmas flores que morreram congeladas ou são outra diferentes?”. E elas me responderam “Thay, não somos nem as mesmas e nem outras diferentes. Quando há condições suficientes, nós nos manifestamos, e quando não, continuamos escondidas. Simples assim!”.
Isto é o que o Buda ensinou. Quando as condições são suficientes, as coisas se manifestam. Quando elas não são suficientes, as coisas se retiram. Elas esperarão o momento certo para se manifestarem de novo.
Antes de dar a luz a mim, minha mãe esteve grávida de outro bebê. Ela sofreu um aborto e aquela pessoa não nasceu. Quando eu era mais jovem, eu costumava me perguntar: aquele era meu irmão ou era eu mesmo? Quem estava tentando se manifestar daquela vez? Se ela perdeu o bebê, significa que as condições não eram suficientes para que ele se manifestasse e então ele se retirou, para esperar melhores condições. “É melhor me retirar. Em breve voltarei, minha querida”. Então temos que respeitar sua vontade. Quando a gente olha o mundo dessa maneira, sofremos menos. Era o meu irmão que a minha mãe perdeu?
Ou talvez era eu que estava para aparecer, mas decidi me retirar - “Ainda não é a minha hora”.
Postado por
Samuel Cavalcante
às
13:56
1 comentários
Marcadores: continuação, morte, nascimento